Na assembleia estadual realizada no dia 14 de março, a direção da APP-Sindicato ignorou os relatos da maioria absoluta de seus núcleos regionais, que indicavam um quadro desalentador já conhecido: não havia condições reais para a deflagração de greve. Ainda assim, optou por colocar a proposta em votação e aprovou a paralisação a partir do dia 23, condicionando-a ao não avanço das negociações com o governo. Tal postura não expressa firmeza política, mas antes uma tática de pressão descolada da materialidade concreta das escolas, revelando mais uma vez o distanciamento entre a direção sindical e a base da categoria.
É fundamental registrar que o conjunto das entidades sindicais do funcionalismo público estadual, articuladas no Fórum das Entidades Sindicais do Paraná (FES), havia deliberado pela construção de uma mobilização unificada no dia 17 de março, com o objetivo de ampliar a pressão sobre o governo. A assembleia do dia 14 poderia ter sido o momento de fortalecer essa estratégia, aprovando uma paralisação consistente e convocando um ato massivo.
No entanto, a direção da APP-Sindicato preferiu apostar em um blefe, desconsiderando os informes das regionais e contribuindo para aprofundar a descrença da categoria.
Esse, porém, não é o elemento central. É necessário indagar o que levou a direção a recuar de forma tão vexatória diante de uma decisão que partiu dela mesma. Teria, enfim, reconhecido o abismo entre sua linha política e o sentimento nas escolas? Ou o recuo foi motivado por cálculos externos à luta concreta dos trabalhadores, como a reconfiguração do cenário eleitoral no estado, submetendo, uma vez mais, nossa pauta à perspectiva eleitoreira?
A pergunta que permanece é ainda mais incômoda: por que, diante de um acúmulo real de ataques, desde as sucessivas investidas de privatização e militarização das escolas, o aprofundamento da precarização do trabalho, a rejeição de pautas históricas da categoria e até mesmo as mortes de professores em decorrência das condições de trabalho, não se optou pela construção de uma greve quando havia indignação concreta e motivos amplamente reconhecidos nas escolas?
A resposta não pode ser dissociada da concepção sindical que dirige a APP-Sindicato. Ao longo dos últimos anos, a direção sindical tem reiteradamente se colocado como fator de contenção da luta, evitando tensionar o governo mesmo diante de ataques sistemáticos à carreira, às condições de trabalho e à própria existência da educação pública como direito social. Nesse sentido, a manobra recente não aparece como exceção, mas como continuidade de uma política que alterna entre o imobilismo e o blefe, sempre subordinando a dinâmica da luta a cálculos eleitoreiros.
Mais grave ainda é que, ao recuar sem apresentar qualquer balanço político consequente, a direção concede, mais uma vez, um voto de confiança ao governo, justamente no momento em que a categoria necessitava de firmeza e organização para enfrentar os ataques em curso. Ao mesmo tempo em que deposita expectativas nas negociações institucionais, desarma a categoria ao não construir as condições reais de mobilização, reforçando um ciclo perverso em que se esvazia a luta concreta e se alimenta a ilusão de que os direitos podem ser garantidos sem o necessário enfrentamento. Essa artimanha de anunciar uma greve sem base concreta e recuar diante de uma decisão que partiu da própria direção, aprofunda a desorganização, desmoraliza não apenas o instrumento da greve, mas a própria entidade, e amplia o sentimento de impotência nas escolas.
Superar esse ciclo exige não apenas denunciar o blefe, mas reconstruir, pela base, um processo de organização enraizado nas condições reais de trabalho e vida da categoria, capaz de restituir à greve seu sentido político: não como ameaça vazia, mas como expressão concreta da unidade, da consciência e da disposição de luta dos trabalhadores e trabalhadoras da educação.