42 diretores afastados: a escola pública sob o comando das plataformas

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O governo Ratinho Jr. afastou 42 diretores das escolas estaduais do Paraná entre 2024 e abril de 2026, em processos relacionados ao cumprimento das metas das plataformas digitais. Esses afastamentos não são episódios isolados. São a expressão de uma política que transforma diretores em executores de metas e subordina a escola pública à lógica do controle e dos indicadores.

Dados divulgados no Seminário Nacional Juventude brasileira e as transformações contemporâneas: sujeitos, políticas e práticas educacionais transmitido no dia 3 de julho de 2026 pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=22uUgjMznpY&t=3337s

Há anos, o governo vem atacando a função pedagógica das direções e impondo uma lógica de controle. Em vez de organizar a escola em torno do conhecimento, do currículo e do projeto político-pedagógico, os diretores passaram a ser cobrados por indicadores, relatórios e metas. Agora, o governo dá um passo além: quem não entrega os resultados esperados é afastado, independentemente dos interesses da comunidade escolar, que muitas vezes os elegeram.

Os 42 afastamentos deixam claro o que realmente importa para a SEED. A permanência de uma direção passa a depender menos da capacidade de garantir as condições para o ensino e mais da capacidade de fazer a escola cumprir as metas das plataformas.

Com isso, as direções deixam de representar prioritariamente os interesses da comunidade escolar e passam a atuar unilateralmente como executoras da política do governo. Para permanecer no cargo, precisam monitorar plataformas, pressionar professores e garantir indicadores. Forma-se uma cadeia de responsabilização: a Secretaria pressiona os diretores, os diretores pressionam as equipes escolares, e toda a vida da escola passa a ser organizada em função das metas.

Essa inversão altera a própria finalidade da escola pública. O conhecimento deixa de ocupar o centro da política educacional. Em seu lugar entram percentuais, relatórios e mecanismos permanentes de controle. A morte da professora Silvaneide Monteiro Andrade, de 56 anos, ocorrida em 30 de maio de 2025, após sofrer um infarto dentro da sala da equipe pedagógica do Colégio Estadual Cívico-Militar Jayme Canet, no bairro Xaxim, em Curitiba, durante uma reunião em que era questionada sobre o cumprimento das metas das plataformas digitais, tornou-se o símbolo mais dramático dos efeitos dessa política. O trágico episódio expôs o ambiente de pressão permanente, vigilância e responsabilização imposto aos trabalhadores da educação.

O fato de ter ocorrido em uma escola cívico-militar também é significativo, pois evidencia a convergência entre diferentes mecanismos de controle sobre a escola pública: de um lado, a lógica gerencial das plataformas, metas e indicadores; de outro, um modelo de gestão marcado lógica de comando, obediência e vigilância que se distancia da natureza pedagógica e democrática da escola pública. Não se trata de um caso isolado, mas da expressão de um projeto educacional que desloca o foco do conhecimento e da formação humana para o controle dos trabalhadores e o cumprimento de metas, intensificando práticas de assédio institucional e contribuindo para o adoecimento físico e mental da categoria.

Não estamos diante de uma simples inovação tecnológica. Estamos diante de uma política que reorganiza a educação segundo uma lógica gerencial e abre cada vez mais espaço para os interesses privados que disputam o controle das tecnologias educacionais e dos dados produzidos nas escolas.

Reduzir a educação a indicadores significa negar sua função social e transformar a escola em uma engrenagem da lógica gerencial. É preciso, portanto, reafirmar que a escola pública existe para garantir o acesso ao conhecimento historicamente produzido pela humanidade. Sua função é formar sujeitos críticos, fortalecer a democracia e assegurar um direito universal. Quando um governo afasta diretores porque metas digitais não foram alcançadas, deixa evidente que o conhecimento deixou de ser a referência de sua política educacional.

Os 42 afastamentos não atingem apenas os diretores envolvidos. Funcionam como um mecanismo de disciplinamento de toda a rede. Ao condicionar a permanência no cargo ao cumprimento das metas, o governo cria incentivos para que as direções incorporem e reproduzam sua política nas escolas, mesmo quando ela entra em choque com as necessidades da comunidade escolar e com a autonomia pedagógica.

Defender a escola pública significa enfrentar esse projeto. Significa defender uma educação organizada em torno do conhecimento, da autonomia pedagógica e da gestão democrática — e não subordinada a indicadores, metas e interesses privados.

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