DE GOIÁS PARA O PARANÁ: O MODELO DE EDUCAÇÃO QUE ADOECE E PERSEGUE PROFESSORES

Denúncias Educação em debate Notas oficiais

Sobrecarga de trabalho, retirada de direitos, adoecimento e denúncias de assédio moral e abuso de autoridade. Esse é o retrato da educação pública de Goiás que precisa ser conhecido diante da escolha de Fátima Gavioli para comandar a Secretaria de Estado da Educação do Paraná.

O governador eleito Sergio Moro anunciou Fátima Gavioli, que esteve à frente da educação pública de Goiás durante o governo Ronaldo Caiado, como futura secretária da Educação do Paraná. A escolha é apresentada como uma aposta na experiência e na eficiência administrativa. Mas o que essa experiência representou para os trabalhadores da educação?

Em menos de um ano, Goiás registrou mais de 8,9 mil atendimentos psicológicos a servidores da educação. O número é alarmante e revela a dimensão da demanda por assistência psicológica e psiquiátrica em uma rede marcada por denúncias de sobrecarga de trabalho, de intensificação de cobranças e de desvalorização profissional.

Durante a gestão de Gavioli, professores goianos enfrentaram mudanças na organização da jornada de trabalho. Docentes que anteriormente ministravam 28 aulas semanais passaram a enfrentar jornadas de até 32 aulas, comprometendo o tempo destinado ao planejamento, à preparação das atividades e à avaliação dos estudantes, descumprindo a legislação federal que assegura pelo menos um terço da jornada docente para atividades extraclasses.

A desvalorização dos trabalhadores da educação também se evidenciou na remuneração. Professores com vencimento de referência de R$4.914,75 dependiam de auxílios e vale-alimentação que podiam somar aproximadamente R$3.000,00. O afastamento para tratamento de saúde poderia significar a perda dessas parcelas, reduzindo drasticamente os rendimentos justamente quando o trabalhador mais precisava de proteção.

Fátima Gavioli foi denunciada ao Ministério Público do Trabalho (MPT), em novembro de 2024, por assédio moral e abuso de autoridade contra professores da rede estadual de Goiás. Entre as acusações está a humilhação pública contra uma professora durante uma transmissão dirigida aos profissionais da rede. A docente foi demitida apenas quatro dias depois de questionar Gavioli sobre o direito de acompanhar seu filho de 11 meses em consultas médicas sem sofrer descontos salariais.

A gestão de Gavioli também foi alvo de denúncias de assédio moral contra outros trabalhadores da educação, possíveis irregularidades na contratação de professores temporários em detrimento dos aprovados em concurso público e utilização de bonificações para pressionar diretores escolares a reduzir os índices de reprovação dos estudantes. Como sabemos, a vinculação da remuneração dos gestores ao cumprimento de metas de aprovação transforma um direito dos trabalhadores em instrumento de pressão sobre as escolas, subordinando a avaliação da aprendizagem aos indicadores exigidos pelo governo.

Assédio moral, abuso de autoridade, precarização dos vínculos de trabalho, pressão por resultados, sobrecarga, desvalorização profissional, adoecimento e perseguição política. São extremamente graves as acusações que marcaram a trajetória da gestão que agora é apresentada como referência para a educação pública do Paraná pelo governador eleito Sérgio Moro.

Não estamos diante de denúncias isoladas, há um amplo registro de dados que confirmando e reafirmando a violência praticada contra os trabalhadores da educação durante a gestão de Fátima Gavioli no estado de Goiás. A suposta eficiência administrativa atribuída a ela  precisa ser confrontada com as condições concretas em que o trabalho docente é realizado. Os resultados educacionais apresentados como expressão de sucesso não podem ocultar uma política marcada pela intensificação do trabalho, pela retirada de direitos e pelo adoecimento dos profissionais da educação.

A escolha de Fátima Gavioli para comandar a educação paranaense não é uma decisão meramente técnica. É uma escolha política. E não pode ser desvinculada do projeto educacional que ela ajudou a executar em Goiás.

Quando um governo apresenta uma gestão como exemplo de sucesso, mas ignora as condições de trabalho daqueles que sustentam diariamente as escolas, deixa claro quais resultados considera importantes e quais problemas está disposto a tolerar. É essa mesma lógica que o Movimento 29 de Abril vem denunciando no Paraná, onde a sobrecarga de trabalho e o adoecimento dos profissionais da educação têm sido tratados como problemas secundários diante das metas e cobranças impostas pelo governo.

O M29 denuncia essa concepção de educação que coloca a busca por resultados e a contenção de gastos acima da valorização profissional, das condições dignas de trabalho e dos direitos dos servidores.

Diante deste cenário, é fundamental desde já fortalecer a organização e a mobilização dos trabalhadores da educação para enfrentar esse modelo de gestão, resistir à retirada de direitos e lutar pela reversão das políticas que intensificam a exploração, a sobrecarga e o adoecimento da categoria. Conhecendo o enredo e os personagens da história, não podemos permanecer inertes diante de mais uma crônica de morte anunciada. Precisamos fortalecer a luta em defesa de uma educação pública comprometida com a formação dos estudantes, com a valorização dos profissionais do ensino e com a gestão democrática das escolas. Precisamos de uma escola pública que valorize a vida em toda sua amplitude, que não reduza a riqueza do trabalho de ensino e aprendizagem à mera obtenção de índices em ranking de avaliações institucionais.

28 de outubro de 2026.

MOVIMENTO 29 DE ABRIL – M29

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