Vigilância e chantagem econômica: a crise na educação e a falsificação dos índices

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Por Rodrigo Guidini Sonni, professor de sociologia da rede estadual do Paraná

O toyotismo é um modelo produtivo de origem industrial que passou a reorganizar o trabalho no contexto da reestruturação produtiva a partir dos anos 50 e, com mais força, a partir dos anos 70.

Entre muitas mudanças na forma de conceber e realizar o trabalho está uma reorganização da ideia de supervisão. No modelo anterior havia a figura do supervisor que marcava o tempo e pressionava os trabalhadores a produzirem mais. O toyotismo organiza os trabalhadores em equipes, com metas a cumprir. E paga mal o suficiente ao trabalhador, no seu salário regular, para que ele batalhe pelo bônus das metas a cumprir. A grande sacada aqui é a meta em equipe, assim, quando um colega não está desempenhando o suficiente, faltando ou qualquer coisa que impeça a meta, os próprios colegas cobram e pressionam. É um modelo em que “todos” supervisionam “todos” ao mesmo tempo. Há relatos de casos extremos em que a empresa manda as equipes que não atingem metas indicarem quem, entre eles, será punido ou demitido. Para além do discurso corporativo de “time” e “família”, o efeito prático é colocar os trabalhadores em competição uns contra os outros e ocultar o papel dos patrões nas decisões impopulares que tomam. Uma inversão do velho lema “paz entre nós e guerra aos senhores” para “paz aos senhores e guerra entre nós”.

É importante lembrar que embora esse modelo tenha surgido na indústria, logo foi adaptado ao setor de serviços e demais áreas do trabalho, inclusive na educação.

O governo do Paraná criou o chamado Bônus de Resultado de Aprendizagem (BRA) para premiar professores e um tanto de gente que não está em sala de aula, quando a escola desse professor atingir metas estabelecidas. Na prática, desconsiderando o discurso cínico de que essas metas representam avanços na aprendizagem, o troço é um bônus para escolas que aprovam alunos de qualquer jeito e colocam presença para um monte de alunos que não necessariamente estão presentes. O ponto é esse: aprovar e dar presença, ainda que os canalhas usem o discurso do “não é bem assim”. Seus argumentos não resistem a qualquer checagem bem feita da realidade.

Não é exagero dizer que o governo está comprando professores para que estes produzam indices formais (para não dizer falsos) que não correspondem a uma melhora significativa do aprendizado.

O efeito deletério já começou. Soube de escolas em que a discussão central e mobilizadora passou a ser como conseguir o tal dinheiro. Inclusive com colegas sendo estigmatizados e pressionados a produzirem, não resultados de aprendizagem de fato, mas as tais aprovações e presenças. E há, claro, o assédio, dos que estão em cargos, das mais variadas maneiras, das mais sutis até as mais explícitas.

Eu não mencionei, mas entre os entraves para o recebimento desse dinheiro, está o professor não poder se ausentar, mesmo que doente.

A resistência a tudo isso deveria ser coletiva. Não sendo cabe ao menos uma reflexão pessoal sobre a ética de cada um no trabalho.

A essência do trabalho do professor deve ser ensinar. Provas e demais atividades avaliativas tem uma dupla função: aferir o aprendizado REAL do aluno e orientar o trabalho do professor. Presença é um dado mais fácil de verificar: ou o aluno está ou não está. Quando o professor, por qualquer motivo que seja, se sujeita a forjar notas e presenças que não correspondem a realidade está atentando contra a sua própria profissão. Está ainda colaborando de forma ativa com uma piora da educação e da sociedade. Inclusive, ao produzir o falso efeito em alunos de que eles “estão indo bem”, sem que isso seja verdade, está ajudando a aumentar a desigualdade escolar entre alunos de escolas públicas medíocres e ruins e alunos de escolas particulares ou instituições públicas de exceção.

Todos nós precisamos de mais dinheiro. Mas a que preço? Quem está a venda? Não precisaria, não fosse a má fé de alguns e o analfabetismo funcional de outros, afirmar que não condeno aqui quem recebeu o tal bônus, não é isso. Mas sim, aos “movimentos” e pessoas que estão sim condicionando todo trabalho escolar a esses estranhos objetivos.

Temos o costume de julgar os pecados dos outros e justificar os nossos ou das pessoas que gostamos. Muitos fazem isso com prostitutas e quase todos nós com ladrões ou com quem comete crimes. O que estamos fazendo é menos grave ou muito diferente? Ainda que aleguemos ser vítimas de um sistema, de um governo ou o que quer que seja?

Talvez o dano da meretriz e do ladrão seja menor do que garantir a aprovação automática de milhares de estudantes que mal sabem ler, escrever, contar, pensar.

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