A farsa do IDEB no Paraná: como o governo fabricou o primeiro lugar

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Durante anos, o governo Ratinho Jr apresentou o desempenho do Paraná no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) como a principal evidência do sucesso de sua política educacional.

Entretanto, uma análise dos próprios dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), publicada pelo Jornal Plural, indica que esse crescimento não foi acompanhado por um avanço equivalente na aprendizagem dos estudantes. Como sintetiza a reportagem:

“Depois de 2019, o avanço da rede estadual no principal indicador da educação básica parou de vir do aprendizado e passou a depender da taxa de aprovação, que disparou de 80% para quase 97% — no mesmo período em que o estado fechou 22,6 mil vagas no ensino noturno.” (FREITAS, 2026). Os gráficos abaixo, elaborados pelo jornal Plural, a partir dos dados disponibilizados pelo INEP, ilustram bem essa situação.

A mesma reportagem conclui que “a realidade dos dados, porém, mostram que o avanço do Ideb depois de 2019 veio quase inteiramente do aumento da aprovação de alunos, e não de estudantes aprendendo mais” (FREITAS, 2026). Em outras palavras, o índice aumentou porque a elevação das taxas de aprovação passou a impulsionar o IDEB, inclusive em meio a denúncias de aprovação de estudantes que não atingiram os critérios mínimos exigidos, e não porque houve uma melhora efetiva da aprendizagem.

Ao mesmo tempo, o governo reduziu drasticamente o Ensino Médio noturno, justamente onde se concentram estudantes trabalhadores, jovens com trajetórias escolares interrompidas e alunos com maior risco de reprovação ou abandono. Entre 2017 e 2025, as matrículas noturnas caíram de aproximadamente 170 mil para 69 mil.

Esse encolhimento se deu justamente porque, nos últimos anos, a política educacional do Paraná passou a privilegiar a expansão de escolas em tempo integral, a militarização e a transferência da gestão de escolas para a iniciativa privada. Nesse contexto, o fechamento de turmas do período noturno tornou-se parte de uma reorganização da rede que reduz o atendimento às camadas populares, dificulta o acesso de estudantes trabalhadores à escola e, ao mesmo tempo, melhora artificialmente os indicadores de fluxo utilizados na composição do IDEB.

A combinação é preocupante: fechamento de vagas no período noturno, pressão pela aprovação, denúncias de alterações em registros escolares, cobrança de metas e transformação do trabalho pedagógico em uma corrida por indicadores.

Também surgiram denúncias de que escolas escolhidas para o PISA receberam treinamento específico antes da avaliação. Segundo reportagem do Jornal Plural, pelo menos 22 das 30 escolas selecionadas teriam participado de ações do programa InvestigAÇÃO. A denúncia foi encaminhada à OCDE. A Secretaria de Estado da Educação nega que o programa tenha sido utilizado para treinar estudantes para a prova.

Esses fatos denunciam uma estratégia do governo para maquiar os resultados e colocam em dúvida a credibilidade dos índices apresentados. Em vez de refletirem a aprendizagem efetiva dos estudantes, os indicadores passam a expressar uma política voltada à fabricação de números capazes de sustentar um discurso oficial de sucesso, incompatível com os próprios dados de proficiência.

O problema, portanto, não é apenas a confiabilidade de um indicador. Quando toda a política educacional passa a ser organizada em função de metas, rankings e avaliações externas, a aprendizagem deixa de ser o centro da escola. O objetivo já não é ensinar melhor, mas produzir números melhores. A pressão recai sobre professores e professoras para elevar índices, enquanto as deficiências estruturais da rede seguem sem resposta.

Enquanto isso, o Paraná investe em educação abaixo da média nacional, fecha turmas, reduz vagas no período noturno, amplia contratos temporários, intensifica o trabalho docente e transfere recursos públicos para plataformas privadas, terceirizações e privatização da gestão. A propaganda oficial comemora rankings e distribui prêmios. A realidade vivida nas escolas, porém, revela uma política voltada à produção de indicadores, enquanto permanecem sem solução os problemas que comprometem o direito à educação pública de qualidade.

Para saber mais:

REIS, Aline. Denúncia feita à OCDE acusa Seed de realizar “intensivo” para inflar desempenho do Pisa 2025. Plural, Curitiba, 23 jul. 2026. Disponível em: https://www.plural.jor.br/educacao/denuncia-feita-a-ocde-acusa-seed-de-realizar-intensivo-para-inflar-desempenho-do-pisa-2025/.  Acesso em: 7 ago. 2026. 

PLURAL. Paraná: levantamento aponta investimentos em Educação abaixo da média nacional. Plural. Curitiba, 27 jul. 2026. Disponível em: https://www.plural.jor.br/educacao/parana-levantamento-aponta-investimentos-em-educacao-abaixo-da-media-nacional/. Acesso em: 7 ago. 2026. 

FREITAS, Rosiane Correia de. Aumento da aprovação mascarou desempenho acadêmico fraco no Ideb. Plural, Curitiba, 2026. Disponível em: https://www.plural.jor.br/aumento-da-aprovacao-mascarou-desempenho-academico-fraco-no-ideb/. Acesso em: 7 ago. 2026. 

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